inícionoticiasRICARDO BOECHAT ESCREVE SOBRE O NOVO DISCO DO RAPPA.

12/09/2013

RICARDO BOECHAT ESCREVE SOBRE O NOVO DISCO DO RAPPA.

 

“Nunca Tem Fim”, por Ricardo Boechat

Tem alguma coisa acontecendo no Brasil.

Ainda não sei o que é – muitos, exceto os gênios, também não sabem. Mas o cheiro é bom.

Primeiro, porque a meninada foi à luta; sem dúvida não tantos, ainda. E está gritando, certamente não tão alto, ainda.

Depois, porque tudo isso tem a ver com mudança, com respeito, com igualdade e justiça. Tem a ver com amanhã… O cheiro é raro por aqui. E é mesmo bom. Muito bom.

Estou confusamente feliz.  Enfim, tem alguma coisa acontecendo no Brasil.

Aspiro ao novo disco d’O Rappa e ele me inspira a pensar que, com sorte, talvez estejamos ‘experimentando o experimental’ (foram tão poucas as vezes..). As faixas se sucedem e mexo mais que os pés, percutindo o chão. Mais que as pernas, sacolejando sob a mesa, na pancada da música, enquanto escrevo. Sim, é mais que isso; mais que o som que vicia, que desinquieta o corpo.

No centro de tudo, envolvendo tudo, dando alma a tudo d’O Rappa, desde sempre, aqui e novamente, neste disco, está o discurso, a letra, o grito.

Sempre me incomodou a ideia de ‘arte engajada’. Menos pelo engajamento do que pela arte, pois arte é liberdade, é voo. Não há engajamento no voo do pássaro. Só voo. Só liberdade.  “Não existe nada melhor neste mundo do que estar livre”,

Mas, ainda assim, como é plena, como é suprema a alegria quando somos tocados pela arte e pela mensagem numa mesma criação humana. Suspeito que haja algo de divino nesses momentos.

Tem alguma coisa acontecendo no Brasil. E minha mente dança ouvindo O Rappa e as ruas como eco recíproco.

Voltei no tempo e repassei o primeiro CD da banda, o segundo, o terceiro… Um por um, até este, vinte anos depois.

Não foi uma viagem ao passado. Foi um longo reviver o presente, que estava onde ainda está, tão cruel para tantos. E que, um dia, não mais estará como sempre esteve.  Não será como sempre foi.

“Sim, é logo ali o horizonte

 Claro, vou mais além”

Como clama O Rappa, que possamos ir todos, enfim.